O café já pago Às oito da manhã, a chuva batia na montra do Café da Janela, numa rua de Lisboa. Teresa levantou uma chávena e encontrou outro envelope branco debaixo do pires. Dentro estavam duas moedas e um papel com a frase habitual: «Um café para o homem da pasta azul.» — É a sexta quinta-feira — disse Teresa, pousando as moedas no balcão. — Não quero dinheiro escondido no meu café. Inês, a sobrinha de vinte e quatro anos, tirou o casaco molhado e leu o papel. Teresa já tinha preparado o café daquele homem cinco vezes, embora nem sequer soubesse o nome dele. Ele chegava sempre perto das oito e meia, pedia um café sem açúcar e abria a pasta azul junto à janela. — Quem entrou hoje? — perguntou Inês. — Ninguém entrou pela porta da rua. A Marta trouxe o pão pela porta de trás, como sempre. Marta ainda estava perto da cozinha, a contar as caixas vazias da entrega. Levantou a cabeça, mas continuou logo a contar. — Então foi a Marta — disse Inês. — Eu apenas entreguei o pão — respondeu Marta. — A Teresa viu as minhas mãos ocupadas. Teresa confirmou com um gesto. Marta trouxera duas caixas, recebera a fatura assinada e não chegara perto da mesa junto à janela. Inês voltou o papel e viu linhas muito claras no outro lado. — Este papel não veio de um bloco de notas — disse ela. — Foi cortado de uma etiqueta maior. Teresa aproximou o papel da luz. No verso, quase apagadas, apareciam as palavras «farinha» e «doze unidades». Inês pegou numa etiqueta presa a uma das caixas do pão. O papel tinha a mesma cor, e faltava-lhe um canto com o mesmo tamanho do bilhete. — A etiqueta prova pouco — disse Marta. — Há muitas etiquetas na cozinha. — Esta estava colada — respondeu Inês. — Quando a arrancou, ficou cola no canto. O envelope também ficou preso ao pires. Marta olhou para o pires, onde uma pequena parte do envelope ainda não se soltava. Depois meteu as mãos nos bolsos do avental. Nesse momento, a porta abriu-se, e o homem da pasta azul entrou com água nos ombros. Pousou a pasta junto à janela e procurou moedas no bolso. — O seu café já está pago — disse Teresa. — Mas hoje preciso de saber uma coisa. Como se chama? — Chamo-me Nuno — respondeu ele. — Quem paga os cafés? Marta pegou nas caixas vazias, mas Teresa fechou a porta da cozinha. — Foi a Marta — disse Inês. Nuno olhou para ela durante alguns segundos. — Foi a senhora que perdeu as chaves no autocarro? — O senhor encontrou-as e levou-as até à padaria — disse Marta. — Não aceitou dinheiro, e eu não sabia o seu nome. — Também não sabia o seu — respondeu Nuno. Teresa serviu o café e colocou o envelope aberto ao lado da chávena. Nuno bebeu um gole, tirou duas moedas do bolso e empurrou-as pelo balcão. — Este é para amanhã — disse ele. — É o café da senhora do pão.