A Linha Branca No balneário do Estrela do Cais, Leonor apertou a fita que lhe prendia o ombro direito. A fita já tinha duas voltas, mas ela pediu uma terceira a Inês, a fisioterapeuta. — Se apertar mais, ficas sem sentir o braço — disse Inês. — É essa a ideia. — Não tem graça. Leonor abriu e fechou a mão. Os dedos obedeciam, embora uma dor fina descesse do ombro até ao pulso. Do outro lado da porta, os adeptos cantavam os nomes das jogadoras. Entre os cânticos do Estrela, ouvia-se a resposta dos adeptos do União das Pontes. A meia-final ia começar dentro de vinte minutos, e o ar húmido de Recife entrava pelas janelas altas. Duarte, o treinador, colocou uma garrafa de água diante de Leonor. — Bebe devagar. Hoje vais precisar da cabeça mais do que do braço. — A cabeça não chega às bolas altas. — O teu recorde chega a todo o lado. Leonor pousou a garrafa sem beber. Em quatro épocas no Estrela, tinha enfrentado nove penáltis e tinha defendido todos. Algumas avançadas tinham rematado para fora, mas ninguém falava dessa parte. Para os adeptos, Leonor nunca deixava entrar um penálti. — Não fale do recorde antes do jogo — disse ela. — Não sou eu que vou marcar o penálti. — Nem sabe se vai haver um. Duarte olhou para a porta fechada. Todos no balneário sabiam quem marcava os penáltis no União das Pontes. Marta, a irmã mais nova de Leonor, tinha marcado seis naquela época. As duas não jogavam uma contra a outra desde que Marta recusara um contrato no Estrela e escolhera o União. Leonor tinha conseguido esse contrato sem perguntar nada à irmã. Telefonara a um dirigente, enviara vídeos e marcara uma reunião. Quando contou a novidade, esperava um agradecimento. Marta respondeu apenas: — Outra vez a decidir por mim. Desde então, falavam em aniversários e quando era preciso dividir alguma despesa. As mensagens eram curtas, corretas e sem perguntas. Inês cortou a fita com uma tesoura. — Se sentires o braço pesado, chamas-me. — Durante o jogo? — Sim, Leonor, durante o jogo. É para isso que estou aqui. — E eu estou aqui para não sair. Duarte entregou-lhe as luvas. — Se houver um penálti, espera pelo pé dela. Não jogues contra a tua memória. Leonor enfiou a mão esquerda na luva. — Conheço o pé dela melhor do que a memória. No túnel, as equipas formaram duas filas. Marta estava três lugares atrás da capitã do União, com o cabelo preso e as mãos nas costas. Leonor sentiu os olhos da irmã antes de virar a cabeça. — O ombro? — perguntou Marta. — Está no mesmo sítio. — Vi a fita. — Então não precisavas de perguntar. Marta passou a língua pelos lábios, como fazia antes de um remate difícil. — Ainda saltas sempre para a direita? — Ainda rematas sempre para lá? A árbitra chamou as capitãs, e as filas começaram a andar. Marta bateu duas vezes com os dedos na própria perna. — Não fui àquela reunião — disse ela. — Eu soube. — Fui ao União nessa tarde. Leonor entrou no relvado sem responder. O Estrela marcou primeiro, aos dezassete minutos. Leonor viu a jogada de longe e levantou os dois braços quando a bola entrou. A dor no ombro apareceu logo, rápida e quente, como se a fita escondesse uma lâmina. O União empatou antes do intervalo. Marta recebeu a bola à entrada da área, puxou-a para o pé esquerdo e passou entre duas defesas. Em vez de rematar, tocou para uma colega, que marcou junto ao poste. Marta não festejou diante de Leonor. Correu para a colega e voltou para o meio-campo sem olhar para a baliza. Ao intervalo, Inês tentou tocar no ombro de Leonor, mas ela afastou-se. — Consigo levantar o braço. — Mostra. Leonor levantou-o até à altura do peito. — Mais alto — pediu Inês. — Não preciso de apanhar estrelas. Duarte aproximou-se com o quadro na mão. — Precisas de apanhar cruzamentos. — Ponha mais uma defesa junto a mim. — E tiro quem do meio-campo? — O treinador é você. Durante alguns segundos, ninguém respondeu. Depois Duarte apagou uma linha do quadro e desenhou outra. — Ficas, mas não inventes coragem onde só há dor. Na segunda parte, o calor pareceu baixar sobre o campo. A camisola colava-se às costas de Leonor, e as pernas começaram a ficar duras. Cada pontapé de baliza puxava o ombro para trás. Aos setenta e nove minutos, Marta apareceu sozinha diante dela. Leonor saiu da baliza, baixou o corpo e abriu os braços. Marta podia rematar, mas tentou passar por fora. Leonor tocou na bola com a ponta da luva esquerda. Marta saltou para não lhe pisar a mão e caiu para além da linha final. — Podias ter rematado — disse Leonor, ainda no chão. Marta levantou-se com relva presa ao joelho. — Podias ter ficado na baliza. — Nunca ficas onde te ponho. — Esse sempre foi o problema. Marta correu para cobrar o canto, e Leonor ficou de joelhos mais um segundo. O braço direito tremia. Ela fechou a mão dentro da luva, mas os dedos já não apertavam com força. Aos oitenta e oito minutos, uma defesa do Estrela tentou cortar um passe rasteiro. A bola bateu-lhe primeiro no pé e depois no braço, quando ela caiu. A árbitra apontou para a marca de penálti. O estádio tornou-se um ruído único. As jogadoras do Estrela cercaram a árbitra, enquanto Leonor caminhava até à linha branca. Não protestou, porque tinha visto o toque. Marta pegou na bola. Duarte gritava alguma coisa junto ao banco. Inês tinha uma mão sobre a boca e a outra apertava o saco de gelo. Leonor bateu com as botas nos postes, primeiro no esquerdo e depois no direito. Quando tentou tocar na barra, o ombro não deixou. Marta colocou a bola na marca e recuou quatro passos. Quando eram adolescentes, treinavam penáltis num campo vazio perto de casa. Marta rematava quase sempre para a direita da guarda-redes. Antes de mudar de lado, prendia a respiração e batia duas vezes com os dedos na perna. Agora, diante de Leonor, Marta bateu duas vezes na perna. Leonor não sabia se era um hábito ou uma mensagem. Também não sabia se Marta queria vencer a guarda-redes ou contrariar a irmã. A árbitra apitou. Marta correu, pousou o pé esquerdo junto à bola e abriu o corpo. Leonor empurrou o chão com as duas pernas e lançou-se para a esquerda. A bola seguiu baixa para esse lado. A mão esquerda de Leonor encontrou-a junto ao poste e desviou-a para fora. O ombro direito bateu no chão um instante depois. Leonor ouviu o grito do estádio, mas não conseguiu levantar-se. O braço ficou preso debaixo do corpo, e uma onda de dor fez-lhe fechar os olhos. Marta chegou primeiro. — Não mexas o braço — disse ela. — A bola saiu? — Saiu. — Então afasta-te. Marta afastou-se quando Inês entrou no campo. Leonor recusou a maca e levantou-se com ajuda, mantendo o braço junto ao peito. — Tens de sair — disse Inês. — Faltam dois minutos. — Podes piorar isto. — Faltam dois minutos. Leonor ficou. Nos descontos, Marta recebeu a bola junto à linha lateral. Fez um cruzamento alto para a pequena área, exatamente onde o braço direito de Leonor não chegava. Leonor saltou tarde. Uma avançada do União cabeceou por cima das suas mãos, e a bola entrou no centro da baliza. Marta correu para o canto com as colegas. O União estava na final. Leonor permaneceu de pé até ao apito final. Depois tirou a luva esquerda com os dentes e deixou a direita na mão, porque não conseguia puxá-la. No pequeno gabinete médico, Inês colocou-lhe o braço numa faixa. O barulho da festa do União atravessava a parede. — O recorde continua — disse Duarte, encostado à porta. Leonor olhou para ele. — Perdemos o jogo. Duarte baixou os olhos e saiu sem responder. Inês deixou um saco de gelo sobre a mesa. — Vou buscar o médico. Não tires a faixa. Leonor ficou sozinha. Tentou desapertar a bota esquerda com uma mão, mas o nó estava molhado e duro. A porta abriu-se, e Marta entrou ainda com a camisola do União. Trazia uma medalha provisória presa entre os dedos, embora ainda não houvesse final ganha. — Mandaram-te embora da festa? — perguntou Leonor. — Saí. — É diferente? — Para mim, é. Marta fechou a porta e apontou para a bota. — Queres ajuda? — Consigo. Leonor puxou o atacador, e o nó ficou mais apertado. Marta agachou-se diante dela. — Defendeste o penálti. — Marcaste o golo. — Fiz o cruzamento. — Eu sei o que fizeste. Marta segurou as duas pontas do atacador, mas esperou. — Naquela reunião, tu já tinhas escolhido o meu número — disse ela. — Era o número que estava livre. — Era o teu número antigo. Leonor encostou a cabeça à parede. — Pensei que o querias. — Nunca perguntaste. — E tu nunca disseste que não querias jogar comigo. Marta começou a soltar o nó com cuidado. — Eu queria jogar contigo. Não queria jogar atrás de ti. Leonor observou as mãos da irmã. Havia terra debaixo das unhas e uma pequena ferida num dedo. — Hoje passaste à minha frente — disse Leonor. — Não resolveu nada. — Eu sei. Marta libertou o primeiro nó e tirou a bota. Depois colocou-a no chão, ao lado da medalha. — Porque saltaste para a esquerda? — perguntou. — Bateste duas vezes na perna. — Fiz isso para tu pensares na direita. — Pensei que querias dizer esquerda. Marta soltou uma breve gargalhada, mas parou ao ver o braço preso na faixa. — Continuas a decidir o que eu quero dizer. Leonor empurrou devagar a outra bota na direção da irmã. — Então pergunta-me antes de apertar — disse ela. Marta sentou-se no chão, puxou a bota para si e começou pelo primeiro nó.