A saída da negativa O Pátio da Figueira ficava atrás de uma casa estreita, numa rua de Salvador. Naquela tarde, as paredes guardavam o calor, e o chão cheirava a madeira e suor. Rui treinava sozinho no centro, enquanto Mestre Damião afinava o berimbau junto à porta. Rui avançou na ginga, levou o pé direito atrás e baixou o corpo. Depois, apoiou as duas mãos no chão e lançou a perna num círculo largo. O calcanhar passou diante do peito do mestre, sem lhe tocar. Mestre Damião nem pestanejou. «Faz outra vez», disse ele. Rui voltou à ginga e repetiu a meia-lua de compasso. Desta vez, rodou mais depressa e levantou-se logo, pronto para continuar. «Fiz alguma coisa mal?» perguntou Rui. «Fizeste tudo como ontem.» «Isso não responde à pergunta.» «Responde melhor do que pensas.» O mestre pousou o berimbau e entrou no espaço de treino. Aos setenta anos, andava devagar fora da roda, mas mudava quando começava a gingar. O peso passava de um pé para o outro sem ruído, e os braços protegiam-lhe o rosto. «Ataca-me com a armada», disse Mestre Damião. Rui deu um passo, virou as costas por um instante e lançou a perna direita. O mestre baixou-se antes de o pé chegar. Sentou o peso sobre a perna dobrada, estendeu a outra perna e pôs uma mão no chão. O outro braço ficou levantado diante da cara. «Isto é a negativa que já conheces», disse o mestre. «Agora, presta atenção à saída.» Mestre Damião olhou por baixo do braço levantado. Rui esperava que ele rodasse para a direita, como fazia sempre nos treinos. O mestre puxou a perna estendida para junto do corpo e rodou para a esquerda. Passou baixo, junto às costas de Rui, e levantou-se fora do alcance dele. «A negativa não é um buraco onde te escondes», disse o mestre. «É um lugar onde escolhes.» «Escolho depressa, se não quiser levar um pontapé.» «Depressa não quer dizer antes de olhar.» Rui limpou a testa com a manga. Naquela noite haveria a última roda de Mestre Damião naquele pátio. O mestre ia fechar a escola, e Rui era o último aluno que ele aceitara ensinar. Todos esperavam que Rui jogasse no centro e recebesse dele o berimbau no fim. «Outra vez», disse o mestre. Durante quase uma hora, Rui caiu na negativa e saiu de cada lado. Quando pensava primeiro, chegava tarde. Quando se apressava, escolhia sempre a direita. Mestre Damião tocava-lhe no ombro ou fechava-lhe o caminho com o pé. «Olha, Rui.» «Estou a olhar.» «Estás a olhar para dentro da tua cabeça.» Rui soltou o ar com força e voltou à ginga. Nesse momento, uma mulher apareceu à porta do pátio. Trazia calças brancas, uma camisa azul e uma pequena mochila ao ombro. O cabelo estava preso junto à nuca. Mestre Damião viu-a, mas não parou o treino. A mulher encostou-se à parede e observou Rui durante alguns minutos. Quando Rui preparou outra armada, ela falou antes de ele rodar. «Agora vais baixar o ombro esquerdo.» Rui baixou o ombro esquerdo e travou a meio do movimento. «Conhecemo-nos?» perguntou ele. «Ainda não.» «Então, como sabias?» «Também vais pôr a mão direita no chão antes da meia-lua.» Rui olhou para Mestre Damião, mas o velho pegou novamente no berimbau. «Chamo-me Nara», disse a mulher. «Vim para a roda.» «A roda é aberta», respondeu Mestre Damião. Nara tirou a mochila e pousou-a junto à parede. Depois, entrou no pátio e estendeu a mão a Rui. «Tu és o último aluno», disse ela. «Sou o único que ainda cá treina.» «Não foi isso que eu disse.» Rui apertou-lhe a mão. A pele dos dedos de Nara era dura, e havia uma marca antiga sobre o pulso. «Queres jogar comigo esta noite?» perguntou ela. «Quero.» «Então, não mudes nada até lá.» Nara pegou na mochila e saiu sem explicar a frase. Rui ficou a olhar para a porta vazia. «Quem é ela?» perguntou ele. Mestre Damião bateu de leve na corda do berimbau. O som saiu curto e baixo. «Agora, treina a saída para a esquerda», respondeu ele. Ao princípio da noite, Rui encontrou o mestre na pequena sala atrás do pátio. Havia dois bancos, um armário e uma mesa com água, pão e bananas. Mestre Damião estava a enrolar uma corda gasta à volta de um berimbau antigo. «Ela conhece os meus movimentos», disse Rui. «Ela conhece os meus movimentos.» «Não é a mesma coisa.» O mestre puxou a corda e testou o nó. «Para ti, tem sido quase a mesma coisa.» Rui fechou a porta da sala, embora ouvisse vozes no pátio. Os primeiros visitantes já estavam a chegar. «Quem é Nara?» perguntou ele. Mestre Damião pousou o instrumento sobre a mesa. «Foi a minha primeira aluna neste pátio.» Rui esperou mais, mas o mestre começou a descascar uma banana. «Nunca falaste nela.» «Ela foi embora antes de tu chegares.» «Porque saiu?» «Porque eu corrigia tudo.» «Um professor deve corrigir.» «Eu não corrigia apenas os erros.» Mestre Damião partiu a banana ao meio e ofereceu uma parte a Rui. Rui não a aceitou. «Eu queria que Nara pusesse os pés onde eu punha os meus», continuou o mestre. «Queria que ela atacasse no meu tempo e saísse pelo meu lado.» «E ela recusou?» «Primeiro, tentou obedecer. Depois, começou a faltar. Um dia, deixou a corda dela em cima deste banco.» Rui olhou para o banco junto à parede. Não havia lá nada agora. «Ela voltou para te ver?» perguntou Rui. «Podes perguntar-lhe.» «Ela veio lutar comigo.» «Ela veio jogar contigo.» «Sabes que não vai ser apenas um jogo.» Mestre Damião comeu a última parte da banana e limpou os dedos num pano. «Se ela conhece cada movimento teu, não tentes inventar vinte movimentos novos», disse ele. «Faz a negativa, olha e escolhe a saída.» «E se eu perder?» «Nesse caso, levantas-te.» Rui abriu a porta. Antes de sair, voltou-se para o mestre. «Também querias que eu me movesse como tu?» Mestre Damião pegou no berimbau antigo. «Queria», respondeu ele. «Foi mais fácil do que admitir que não sabia ensinar de outra maneira.» O pátio estava cheio quando os dois entraram. As pessoas formavam um círculo largo, e os músicos ocupavam o lado junto à figueira. Mestre Damião sentou-se no centro dos instrumentos e segurou o berimbau diante do corpo. Nara já esperava do outro lado da roda. Tinha tirado os sapatos e prendido melhor o cabelo. Quando viu Rui, bateu as mãos ao ritmo do coro. O toque do berimbau começou lento. Rui e Nara agacharam-se diante do mestre, tocaram no chão e apertaram as mãos. Nara manteve os olhos nos dele. «Ainda baixas o ombro?» perguntou ela. «Podes descobrir.» Os dois entraram na roda quase ao mesmo tempo. Durante alguns instantes, limitaram-se a gingar. Nara avançava sem pressa, mas cada passo dela tirava espaço a Rui. Rui lançou uma queixada, e Nara inclinou o corpo para trás. Antes de ele pousar o pé, ela tocou-lhe de leve no tornozelo. «Rasteira», disse ela. Rui puxou a perna a tempo e voltou à ginga. Tentou uma armada, mas Nara baixou-se antes de ele começar a rodar. Quando Rui acabou a volta, ela já estava ao lado dele. «O ombro avisou-me», disse Nara. Algumas pessoas soltaram um ruído curto, e Rui ouviu palmas mais rápidas. Mestre Damião não mudou o toque. Nara atacou com uma meia-lua alta. Rui esquivou-se e respondeu com outra meia-lua de compasso. Ela saltou por cima da perna dele e caiu fora do círculo do golpe. Rui levantou-se depressa. Nara estava a esperar esse movimento. Entrou junto ao corpo dele, colocou um pé atrás do calcanhar de Rui e empurrou-lhe o ombro. Rui perdeu o equilíbrio, mas apoiou a mão no chão e conseguiu não cair. Nara afastou-se logo, deixando-lhe espaço para se levantar. «Ele ensinou-te bem», disse ela. «Conheces tudo o que ele me ensinou.» «Conheço tudo o que copiaste.» Rui avançou com mais força. Nara saiu da linha, e ele quase chegou às pessoas do círculo. Travou, respirou e procurou outra vez o rosto dela. Nara estava parada diante dele, com as mãos abertas. «Vais fingir uma bênção», disse ela. «Depois, vais rodar para a direita.» Rui levantou o joelho para a bênção e parou. Durante um instante, teve vontade de fazer exatamente o contrário apenas para a enganar. Depois, percebeu que isso também seria uma resposta dada por Nara. O berimbau mudou o ritmo, e Mestre Damião inclinou a cabeça sobre o instrumento. Nara avançou. O pé dela subiu num arco rápido, numa armada dirigida à altura da cabeça. Rui baixou-se e entrou na negativa. Dobrou a perna direita sob o peso, estendeu a esquerda e pôs a mão no chão. O braço livre protegeu-lhe a cara. Nara deslocou-se logo para fechar a saída direita. «Direita», disse ela. Rui quase rodou para esse lado. O corpo conhecia o caminho, e a mão já fazia força contra o chão. Contudo, ele ficou baixo durante mais meio segundo. Por baixo do braço, viu os pés de Nara. O pé esquerdo estava firme no chão, e o direito preparava-se para cortar a saída. À esquerda havia pouco espaço, mas havia espaço suficiente. Rui puxou a perna estendida, mudou o apoio das mãos e rodou para a esquerda. Passou junto à perna firme de Nara e surgiu ao lado dela. Antes de se levantar, prendeu o calcanhar atrás do tornozelo dela e puxou numa rasteira curta. Nara tentou mudar o peso, mas já era tarde. Caiu de lado e recebeu o chão com as duas mãos. Rui soltou-lhe o tornozelo no mesmo instante e afastou o joelho do rosto dela. O coro cresceu, e as palmas encheram o pátio. Rui ficou agachado, à espera de ver o que Nara faria. Nara levantou-se sem pressa e sacudiu as mãos. Olhou primeiro para Rui e depois para Mestre Damião. «Essa saída não era tua», disse ela ao mestre. Mestre Damião continuou a tocar. «Não», respondeu ele. «Era dele.» Nara voltou-se para Rui e estendeu-lhe a mão. Rui segurou-a, mas ela puxou-o para baixo, junto ao início da roda. Nara bateu-lhe na palma, agachou-se outra vez diante do berimbau e perguntou: «Jogamos de novo?» Rui bateu-lhe na palma da mão e entrou com ela na roda.