O Lugar Em Frente João está no eléctrico, no Porto, como todos os dias. Hoje é importante, porque hoje ele vai falar com Ana. Ana senta-se sempre no lugar em frente. João vê Ana há muitos meses. Nunca fala com ela. O eléctrico pára. João entra e paga o dinheiro. Ana está no lugar em frente. Tem um livro nas mãos. João senta-se e olha para a rua. Ana olha para ele. João olha para o livro. Depois olha para as mãos. O eléctrico começa a andar. — Olá — diz Ana. — Olá — diz João. — Está tudo bem? — Sim. Está tudo bem. João fica calado. Ana abre o livro. João vê o livro, mas não vê as palavras. Ele tem uma pergunta. A pergunta está na cabeça desde ontem. — Gostas desse livro? — pergunta João. Ana fecha o livro. — Gosto. Conheces? — Não. É bom? — É bom. Fala de uma casa e de uma família. — É sobre uma família? — Sim. Sobre uma família e um homem. João olha para o livro. — O homem está bem? — Nem sempre. O eléctrico pára outra vez. Entra gente. João fica com os olhos na porta. Ana fica com o livro nas mãos. — Tu lês aqui todos os dias? — pergunta João. — Quase todos os dias. — E vais sempre neste eléctrico? — Vou. E tu? — Também vou. — Eu sei — diz Ana. João olha para ela. — Sabes? — Sim. Estás sempre no lugar do lado. — Tu sabes o meu lugar? — Sei. Tu entras depois da casa grande. João ri pouco. Ana também ri pouco. O eléctrico continua pela rua. — Eu sou João — diz ele. — Eu sou Ana. — Eu sei o teu nome? — Não. Mas agora sabes. — Agora sei. João tira o telefone do bolso. Olha para o telefone. Não tem mensagens. Guarda o telefone. — Trabalhas perto daqui? — pergunta Ana. — Trabalho numa casa perto do centro. E tu? — Eu trabalho numa escola. — Gostas do trabalho? — Gosto. E tu? — Gosto mais ou menos. Ana abre o livro outra vez. João vê a primeira página. O nome do livro está ali, mas ele não o lê. — Posso saber o nome do livro? — pergunta João. — Podes. Chama-se A Casa. — A Casa. — Sim. A Casa. O eléctrico pára na rua de João. Ele levanta-se. Ana levanta os olhos do livro. — Já vais? — pergunta ela. — Vou. Tenho trabalho. — Amanhã vens? João segura a porta. Há gente atrás dele. — Venho. E tu? — Também venho. — Então sento-me aqui outra vez. — Sim. Senta-te aqui. João sai do eléctrico. A porta fecha-se. Ana fica no lugar em frente, com o livro aberto.