Antes da Neve Rui e Tomás estão em casa, antes do dia começar. Hoje é o último dia para passar a montanha. Amanhã, a neve fecha a passagem. O tio Abel espera por eles do outro lado. Ele tem o dinheiro do trabalho deles. Rui põe pão, água e uma chave na mochila. Tomás olha para a rua pela janela. A rua está branca de frio. “Vamos agora?”, pergunta Tomás. “Vamos agora”, diz Rui. “Temos pouco tempo.” “E se a neve começar?” “Passamos antes da neve.” Eles saem de casa às seis. Levam um casaco cada um. Levam também uma corda pequena. A estrada está vazia. O vento bate na cara deles. Na ponte, a água está baixa e escura. A madeira está molhada. Tomás põe o pé na ponte e pára. “Está segura?”, pergunta ele. “Está segura”, diz Rui. “Vem comigo.” Rui passa primeiro. A ponte faz um som forte. Tomás passa depois, com a mochila apertada ao corpo. Uma madeira parte atrás dele. Tomás cai de joelhos, mas fica na ponte. “Estás bem?” “Estou bem. A minha perna dói.” “Consegues andar?” “Consigo andar.” “Então vamos.” A estrada acaba depois da ponte. Começa um caminho entre árvores. O caminho sobe muito. A água entra nos sapatos deles. O vento fica mais forte. Tomás anda devagar. Rui espera junto de uma pedra grande. “Temos de parar?”, pergunta Tomás. “Não. A passagem está perto.” “Tu sabes onde é?” “Sei. É depois da encosta.” “E se não for?” “É.” Chegam à encosta quando o céu fica cinzento. A neve começa a cair. Primeiro cai pouco. Depois cai muito. O caminho desaparece atrás deles. Rui tira o mapa do bolso. O papel está molhado. A linha não se vê bem. “Dá-me o mapa”, diz Tomás. “Não.” “Dá-me o mapa, Rui.” “Tu não sabes o caminho.” “E tu não vês o caminho.” Rui olha para o papel. Depois olha para Tomás. A perna de Tomás está a sangrar. “Fica aqui”, diz Rui. “Eu vou procurar.” “Não vais sozinho.” “Não podes subir.” “Posso subir.” Tomás tira a mochila de Rui e põe-na às costas. Depois ata a corda a uma árvore. “Agora eu vou à frente”, diz Tomás. Rui não responde. Ata a outra ponta da corda à sua cintura. Sobem pela encosta. A pedra escorrega debaixo dos pés. A neve entra nos olhos. Tomás cai uma vez. Rui segura a corda. Rui cai depois. Tomás puxa a corda com as duas mãos. “Estás bem?”, pergunta Tomás. “Estou bem.” “Consegues andar?” “Consigo andar.” “Então vamos.” Ao fim da tarde, vêem uma parede de pedra. Atrás da parede está a passagem. Mas uma parte do caminho está coberta de neve. O vento já não deixa ver a casa do tio. Rui senta-se no chão. “Não chegamos hoje”, diz ele. Tomás abre a mochila. Ainda há pão e água. “Chegamos”, diz Tomás. “A passagem está ali.” “Não temos luz.” “Temos o fogo.” “Não temos lenha.” Tomás aponta para a parede. Há uma porta pequena na pedra. A chave está na mão de Rui. “Dá-me a chave”, diz Tomás. Rui entrega a chave. Tomás abre a porta. Dentro há uma sala pequena, uma mesa e lenha seca. Rui entra primeiro. Tomás entra depois e fecha a porta. A neve bate na porta durante toda a noite. De manhã, a passagem está fechada. Rui olha para Tomás. Tomás pega no mapa e aponta para outro caminho, por cima da casa. “Vamos por aqui”, diz ele. Rui levanta-se. Dá a mochila a Tomás e pega na corda. “Tu vais à frente”, diz Rui. Tomás abre a porta e entra na neve.