O tambor mais pequeno Às cinco da tarde, Miguel entrou na sala velha da escola, em Salvador. Tinha dezasseis anos e queria tocar com o grupo de tambores havia meses. No dia seguinte, o grupo ia tocar na festa da escola, diante de toda a gente. A porta estava aberta, e o som dos tambores chegava até à rua. Miguel limpou as mãos às calças antes de entrar. Inês, também com dezasseis anos, estava perto da janela com um tambor grande. Miguel gostava dela desde o início do ano, mas nunca tinha dito nada. Ela parou de tocar e olhou para ele. — Chegaste mesmo — disse Inês. — Pensei que ias fugir. — Eu não fujo. — Ontem fugiste quando perguntei se vinhas à festa comigo. — Isso não foi fugir, pois eu só tinha trabalho em casa. — Claro, e o teu trabalho corria muito depressa. Caio, que tinha a mesma idade, estava a pôr os tambores no chão. Era ele quem dava a ordem ao grupo quando todos começavam a tocar. Caio abriu uma caixa, tirou o tambor mais pequeno e deu-o a Miguel. — Este é o teu tambor. Miguel segurou o tambor com uma mão e ficou a olhar para ele. O tambor era tão pequeno que quase desaparecia entre as suas mãos. — Isto parece um copo com pele — disse Miguel. — Então não vais ter qualquer problema — respondeu Caio. — Toca no copo. — Eu queria um dos tambores grandes. — Todos querem um tambor grande no primeiro dia. Miguel olhou para Inês, que passou os dedos pelo seu grande tambor. — Não quero parecer uma criança — disse ele em voz baixa. — Então não toques como uma criança — disse Inês. — O som é mais alto do que pensas. Caio pediu silêncio e levantou uma mão. Explicou que o pequeno tambor dava o ritmo e chamava os outros tambores. Miguel não acreditou, mas colocou-se no meio do grupo. — Quando eu baixar a mão, tu começas — disse Caio. — Depois, todos entram contigo. Caio baixou a mão, mas Miguel tocou cedo demais. Inês entrou depois dele, e os outros tocaram em tempos diferentes. O som encheu a sala como uma máquina partida. — Isso correu bem — disse Miguel. — Podemos ir para casa agora. Ninguém saiu, e Caio voltou a levantar a mão. Na segunda vez, Miguel esperou demasiado e perdeu o ritmo. Caio olhou para o telefone e depois para a porta. — A festa é amanhã, por isso temos pouco tempo. Miguel apertou o pequeno tambor contra o corpo. Inês deixou o seu lugar e chegou perto dele. — Não esperes pelo som deles — disse ela. — Eles estão à espera do teu som. Miguel olhou para as mãos dos outros, todas paradas sobre os tambores. Pela primeira vez, viu que ninguém podia começar antes dele. Caio baixou a mão, e Miguel tocou quatro vezes sem parar. Inês entrou logo depois, e os outros tambores seguiram o mesmo ritmo. O chão pareceu mudar de posição debaixo dos pés de Miguel. Quando a música parou, Inês tirou o grande tambor e colocou-o diante dele. — Agora podes trocar comigo, se ainda queres o tambor grande. Miguel passou a mão pela pele do tambor grande, mas voltou ao seu lugar. — Fica com ele — disse Miguel. — O meu tambor ainda tem trabalho para fazer. Caio levantou a mão outra vez, e Miguel preparou o pequeno tambor.