A Estrela Torta A música da festa chegava abafada ao armazém, misturada com o som das ondas contra o cais. Sentados sobre caixas vazias, Raul, Celina, Bia e Damião olhavam para uma planta desenhada num saco de farinha. Raul pousou o dedo sobre o rectângulo que representava o pontão privado. Do outro lado da parede, a Estrela Torta estava presa por duas correntes, à espera de ser vendida. — Entramos quando começarem os foguetes — disse Raul. — Bia abre o portão, Damião traz a bateria, e Celina solta as amarras. — E tu fazes o quê? — perguntou Celina. — Ponho o motor a trabalhar. — Isso é a parte mais fácil, portanto. Raul levantou os olhos, mas não respondeu. Durante quinze anos, ninguém além dele tinha dado ordens a bordo da Estrela Torta. Desde que Vítor Leme tomara o barco por causa da dívida, Raul falava como se cada frase lhe custasse dinheiro. Bia puxou a planta para junto dela. Tinha unhas curtas, uma chave de fendas atrás da orelha e uma mancha escura no joelho das calças. — A bateria que lá está foi desligada — disse ela. — Eu própria a desliguei, antes de nos proibirem a entrada. Com a bateria da carrinha, o motor deve pegar. — Deve? — perguntou Damião. — Se queres certezas, vai trabalhar num banco. Damião soltou ar pelo nariz e abriu uma geleira. Além da bateria, levava alicates, uma serra pequena e quatro garrafas de água. Tinha passado a tarde a vender peixe grelhado na praça da festa, para que a sua carrinha junto ao cais não levantasse suspeitas. Celina verificou outra vez as horas no telemóvel. Era ela quem guardava as contas do barco, os recibos do combustível e a cópia do contrato que Raul assinara. O contrato dizia que Vítor podia ficar com a Estrela Torta, embora a dívida valesse menos de metade do barco. — O primeiro fogo é à meia-noite — disse Celina. — Temos nove minutos entre a saída de Joel e a ronda seguinte. Joel era o guarda nocturno. Gostava de café forte, de jogos no telemóvel e de abandonar o portão cinco minutos antes da hora certa. — Ele conhece a minha carrinha — disse Damião. — Conhece a carrinha de um vendedor que trabalha na festa — respondeu Celina. — Esta noite, é isso que tu és. Raul dobrou o saco de farinha e meteu-o no bolso. Depois colocou sobre a caixa a chave da Estrela Torta, presa a um pedaço de cortiça azul. — Se alguém quiser desistir, é agora. Bia pegou na chave. — Já desistimos durante três semanas. Não resultou. Às onze e cinquenta, as ruas próximas do cais estavam cheias de música, fumo de comida e lanternas de papel. A festa ocupava a praça, mas o armazém de Vítor ficava numa rua escura, atrás de uma fila de oficinas fechadas. Damião parou a carrinha junto ao portão e abriu o capô. Bia desceu com uma caixa de ferramentas, enquanto Celina e Raul ficaram escondidos entre caixas de peixe vazias. — Se o Joel vier falar comigo, digo que fiquei sem bateria — murmurou Damião. — Tu ficaste sem bateria — disse Bia, retirando-a da carrinha. — Não precisavas de tornar a mentira tão verdadeira. Bia desapareceu num corredor estreito entre o muro e um velho depósito de gelo. Ao fundo, uma grade baixa dava acesso ao lado interior do armazém. Ela já medira a grade duas vezes e sabia que o parafuso inferior girava sem resistência. Na guarita, Joel levantou-se e vestiu um casaco leve. Consultou o telemóvel, apagou a luz e caminhou em direcção à praça, dois minutos mais cedo do que Celina esperava. Celina tocou no braço de Raul. — Agora. Os dois atravessaram a rua. Damião ficou junto da carrinha, a fingir que procurava um cabo debaixo do banco. Bia abriu o portão por dentro, sem fazer mais ruído do que uma moeda sobre madeira. Raul entrou primeiro e viu a Estrela Torta sob uma lâmpada amarela. O casco azul estava sujo, mas o nome continuava pintado a branco na popa. Havia uma corrente na proa, outra na popa e uma placa presa à cabine com a palavra “retido”. Raul arrancou a placa e atirou-a para o chão. — Depois — disse Celina. — Primeiro, as correntes. Bia e Damião levaram a bateria para bordo. Celina abriu os cadeados com duas chaves que copiara meses antes, quando ainda pagava as contas no escritório de Vítor. Raul entrou na cabine e passou a mão pelo volante. O copo de metal continuava preso junto à janela, e um casaco seu ainda estava pendurado atrás da porta. — Raul — chamou Bia. — A chave. Ele lançou-lhe o pedaço de cortiça azul. Bia ligou a bateria, verificou os cabos e fez um sinal. Na praça, a música parou. Uma voz anunciou pelos altifalantes que os foguetes seriam atrasados por causa do vento. Damião ficou imóvel. — Quanto tempo? — Não disseram — respondeu Celina. Raul olhou para o portão aberto e depois para o canal escuro. — Continuamos. — Sem o barulho, vão ouvir o motor em toda a rua — disse Damião. — Se esperarmos, Joel volta. Bia rodou a chave. O motor tossiu uma vez, tremeu e começou a trabalhar com um ruído pesado. Raul sentiu a vibração subir pelo chão da cabine, como uma voz conhecida através de uma parede. Celina empurrou o barco para longe do pontão. Damião saltou para bordo no último instante e puxou o cabo atrás dele. Raul avançou com cuidado, mas a Estrela Torta não saiu do lugar. O motor ganhou força, a água ferveu junto à popa, e todo o barco se inclinou para estibordo. — Desliga! — gritou Bia. Raul desligou o motor. No silêncio, ouviram metal a raspar debaixo do casco. Bia deitou-se no convés e apontou uma lanterna para a água. — Há um cabo preso à quilha. Celina ajoelhou-se ao lado dela. Um cabo de aço saía da água e terminava numa argola escondida debaixo do pontão. Não estava ali quando tinham estudado o local dois dias antes. — Vítor sabia — disse Celina. Do outro lado do portão, surgiu uma luz. Joel regressava pela rua, com um copo de café numa mão e o telemóvel na outra. — Para o chão — ordenou Raul. Todos se baixaram, mas a carrinha continuava com o capô aberto junto ao portão. Joel parou, olhou para ela e chamou por Damião. — Ó mestre, ainda estás aí? Damião fechou os olhos por um segundo. Depois levantou-se e saltou para o cais. — A bateria morreu — respondeu ele, caminhando para o portão. — Uma noite perfeita para isso. Joel apontou o café para a carrinha. — Mas a bateria não está lá. — Está a carregar na oficina. — A oficina está fechada. Enquanto Damião falava, Bia entregou a Raul a serra pequena. Raul tentou cortar o cabo, mas os dentes escorregaram no aço molhado. Celina procurou na caixa de ferramentas e encontrou um alicate grande. Colocou as lâminas sobre o cabo e carregou com as duas mãos, sem conseguir fechá-las. — Bia, ajuda-me. Bia juntou as mãos às dela. O cabo cedeu um pouco, mas não partiu. Junto ao portão, Joel pousou o café e levou a mão ao bolso do casaco. — Vou telefonar ao senhor Vítor. Damião empurrou o portão, que bateu no ombro de Joel. O telemóvel caiu ao chão e deslizou para debaixo da carrinha. Joel agarrou Damião pela camisa, e os dois embateram no capô aberto. — Agora! — gritou Damião. Raul e Bia carregaram sobre os braços do alicate. Celina colocou um pé na pega e usou o peso do corpo. O cabo partiu com um estalo seco, e a ponta cortada desapareceu na água. Raul correu para a cabine e ligou o motor. A Estrela Torta afastou-se do pontão, deixando uma onda curta contra as pedras. — Damião! — chamou Bia. Damião libertou a camisa, mas Joel segurou-lhe uma manga. O tecido rasgou-se do ombro ao pulso. Damião correu, chegou à ponta do cais e saltou quando já havia mais de um metro de água entre ele e o barco. Bia apanhou-lhe uma mão, Celina agarrou-lhe o cinto, e ambas o arrastaram para bordo. Atrás deles, Joel recuperou o telemóvel e começou a marcar um número. Raul aumentou a velocidade. Nesse momento, o motor soltou um golpe surdo, perdeu força e morreu. A Estrela Torta continuou a avançar por impulso, mas o vento empurrava-a de novo para as pedras. Raul tentou ligar o motor duas vezes, sem resposta. Bia abriu a tampa no chão da cabine e cheirou o ar. — Tiraram o combustível. — Havia combustível ontem — disse Celina. — Hoje há apenas o que ficou nos tubos. Damião sentou-se no convés, com a camisa rasgada e sangue num cotovelo. Na margem, Joel gritava ao telefone, enquanto uma luz se acendia no escritório do armazém. — Temos dois minutos antes de Vítor chegar à estrada do canal — disse Celina. Raul olhou para o canal, para a festa e para a linha de barcos enfeitados com lanternas. Sem motor, a corrente levaria a Estrela Torta contra um muro antes de alcançar a água aberta. — O pano velho ainda está no porão? — perguntou ele. Bia percebeu primeiro. — Aquilo não é uma vela. — Já foi. Damião levantou-se, embora o braço ferido tremesse. Os três abriram o porão e puxaram um velho pano triangular, usado anos antes quando o motor parara longe da costa. Celina encontrou os cabos enrolados dentro de uma rede. Bia subiu à pequena armação sobre a cabine e prendeu o canto superior, enquanto Raul segurava o volante. — À esquerda! — ordenou Bia. — A minha esquerda ou a tua? — perguntou Damião. — A esquerda do barco, homem. O pano abriu-se com um golpe e quase arrancou Bia da armação. Damião prendeu o cabo a uma argola, Celina puxou o outro, e a proa afastou-se lentamente das pedras. Uma carrinha preta entrou na rua do armazém. Vítor saiu antes de ela parar por completo e correu até ao pontão vazio. — Raul! — gritou ele. — Esse barco já não é teu! Raul reconheceu a voz sem olhar para trás. — A chave ainda serve — respondeu. Vítor mandou Joel soltar uma lancha pequena, mas a chave da lancha estava guardada no escritório. Joel correu para a porta, e Vítor atirou uma caixa ao chão. Nesse instante, os primeiros foguetes rebentaram sobre a praça. O som cobriu os gritos no cais, e dezenas de lanternas moveram-se sobre a água entre a Estrela Torta e o armazém. A vela improvisada puxou o barco para o meio da festa. Raul passou entre duas embarcações iluminadas, enquanto Damião escondia a bateria debaixo de uma lona. — Ele viu-nos a todos — disse Celina. — Eu sei — respondeu Raul. — Amanhã não podemos voltar a casa. — Eu sei. Bia desceu da armação e abriu uma caixa de emergência. Encontrou meio depósito de combustível para o motor auxiliar, duas latas de comida e um velho rádio. — Isto leva-nos até à enseada do norte — disse ela. — Depois, temos de comprar mais. Celina tirou do casaco um envelope grosso. Dentro estavam as cópias das contas de Vítor, incluindo pagamentos falsos e dívidas cobradas duas vezes. — Podemos vender o peixe noutro porto — disse ela. — E posso entregar isto quando estivermos longe. Damião apertou um pano contra o cotovelo e olhou para a manga perdida. — A minha melhor camisa. — Era a tua única camisa com botões — disse Bia. — Por isso mesmo era a melhor. O motor auxiliar pegou à segunda tentativa. Atrás deles, a lancha de Vítor finalmente saiu do pontão, mas ficou presa entre os barcos da festa. Raul guardou a chave com a cortiça azul no bolso e segurou o volante com as duas mãos. Quando a Estrela Torta alcançou o canal aberto, Raul virou a proa e disse: — Segurem-se, que ela ainda morde.