A Última Morada — Para onde vamos? — perguntou Artur, enquanto o relógio do painel marcava vinte e uma e trinta e sete. A mulher fechou a porta do táxi, pousou uma mala de couro aos pés e limpou a chuva da testa. Tinha pouco mais de trinta anos, um casaco claro e uma mancha escura junto ao punho esquerdo. — Rua das Magnólias, número dezoito. Artur repetiu a morada, como fazia sempre, e arrancou antes que o semáforo mudasse. A chuva descia pelo pára-brisas em fios grossos, deformando os anúncios e as janelas acesas de São Paulo. Ao chegar ao primeiro cruzamento, Artur olhou para o espelho. — É mesmo a Rua das Magnólias? — Não. Leve-me à Avenida das Nove Luas, número sessenta. Artur levantou o pé do acelerador, mas não travou. — Fica na direcção contrária. — Então vire quando puder. A mulher segurava o telemóvel com as duas mãos, embora o ecrã continuasse apagado. No espelho, Artur viu que ela não observava a rua, mas o relógio do painel. — O relógio está cinco minutos atrasado — disse ele. — Tem a certeza? — Desde ontem. Ainda não tive tempo de o acertar. Ela guardou o telemóvel e apertou a mala entre os tornozelos. Um pequeno ruído metálico veio de dentro, semelhante ao som de uma chave a bater num copo. Artur entrou na avenida seguinte e reparou num carro cinzento duas viaturas atrás. O carro também tinha saído do largo onde a mulher entrara no táxi, mas isso podia não significar nada. — Avenida das Nove Luas, número sessenta — confirmou Artur. — Afinal, vá até à Praça do Mercado Velho. — Essa é a terceira morada. — Eu sei. — Está perdida? — Não. — Alguém vem atrás de si? Ela ergueu os olhos para o espelho e viu o carro cinzento aproximar-se. — Continue a conduzir. Artur mudou de faixa sem responder. O carro cinzento mudou também, mantendo duas viaturas entre eles, e a mulher puxou a manga sobre a mancha do punho. — Se precisa de ajuda, posso levá-la a uma esquadra — disse Artur. — Não quero uma esquadra. — E quer a Praça do Mercado Velho? — Quero o Hotel Horizonte, na Rua do Poente. Artur soltou uma breve respiração pelo nariz. — Sempre que pergunto, dá-me uma morada diferente. — Então não pergunte. Durante alguns segundos, ouviram apenas os limpa-pára-brisas e a água esmagada pelos pneus. O relógio passou para vinte e uma e quarenta e quatro, embora a hora certa já estivesse perto das dez. Artur virou para uma rua estreita, onde as árvores tapavam a luz dos prédios. O carro cinzento apareceu na esquina pouco depois, demasiado depressa para alguém que procurasse apenas um lugar para estacionar. — É o seu marido? — perguntou Artur. A mulher demorou a responder. — É um homem que não me pode alcançar antes das dez. A frase pareceu ensaiada, mas a mão direita dela tremia sobre a mala. Artur viu um corte recente num dos dedos e uma pulseira de prata presa no bolso do casaco, com o fecho partido. — Como se chama? — perguntou ele. — Hoje, não preciso de nome. — Eu chamo-me Artur. — Está escrito na licença. O táxi passou por baixo de uma ponte, e a mala tombou quando uma roda entrou num buraco. O fecho abriu-se por um instante, deixando ver veludo azul, várias correntes e um relógio antigo de metal dourado. A mulher fechou a mala com o joelho e lançou um olhar rápido a Artur. — Era isso que aquele homem quer? — perguntou ele. — Olhe para a estrada. O carro cinzento surgiu no outro lado da ponte e fez sinais de luzes. Artur levou a mão ao botão que ligava o rádio da central, mas a mulher inclinou-se imediatamente para a frente. — Não toque nisso. — Não pode andar a mudar de morada e dar-me ordens dentro do meu táxi. — Posso pagar o dobro. — Não é uma questão de dinheiro. — Para quase toda a gente, acaba por ser. Artur travou junto a um passeio vazio e puxou o travão de mão. O relógio marcava vinte e uma e cinquenta, e a chuva batia no tejadilho como punhados de areia. — Saia, por favor — disse ele. A mulher olhou pela janela traseira. O carro cinzento tinha parado a meio do quarteirão, com os faróis apagados. — Se eu sair aqui, o senhor fica no meio disto. — Já estou no meio. — Ainda não. Ela abriu a mala apenas o suficiente para tirar um maço de notas. Quando levantou o veludo, Artur viu etiquetas cortadas, um alicate pequeno e mais duas pulseiras com os fechos partidos. A mulher pousou as notas no banco da frente. — Terminal da Serra Branca — disse ela. — Chegamos antes das dez, se não parar outra vez. — Essa é a quinta morada. — E pode ser a última. Artur soltou o travão e voltou à estrada, mas deixou as notas onde estavam. Conhecia um caminho curto para o terminal, embora não tencionasse levá-la até lá. Na primeira curva, carregou duas vezes no pedal do travão, fazendo as luzes traseiras piscar num ritmo que Rui reconheceria. Rui conduzia o carro cinzento e seguia certos táxis naquela zona desde o início da noite. Artur conhecia-o havia anos, mas a mulher não podia saber disso. Quando Rui respondeu com um único sinal de luzes, Artur sentiu o coração bater-lhe contra o cinto. — Porque está a abrandar? — perguntou a mulher. — Há água na estrada. — Não havia água na outra faixa. — Quer conduzir? Ela não respondeu. Em vez disso, tirou a pulseira partida do bolso e fechou-a na mão, como se só então tivesse notado que ainda a levava consigo. O relógio do painel passou para vinte e uma e cinquenta e cinco. A mulher consultou o seu próprio relógio, cujo vidro estava rachado, e mandou Artur virar à direita. — O terminal é à esquerda — disse ele. — Mudei de ideias. Leve-me ao Armazém do Norte, junto à Ponte Branca. — Sexta morada. — Vire à direita. Artur obedeceu, pois à direita ficava um antigo posto de combustível, fechado e cercado por muros baixos. Havia espaço para parar, luz suficiente para Rui ver o interior e apenas uma saída para a avenida. Quando o táxi entrou no posto, o carro cinzento acelerou e bloqueou essa saída. A mulher abriu a mala, mas desta vez não procurou dinheiro. A lâmina curta apareceu na mão dela sem qualquer aviso, e a ponta encostou-se ao lado do banco de Artur. — Continue — disse ela. — Não há saída. — Passe pelo passeio. Rui saiu do carro cinzento com a arma apontada para o chão. Trazia a camisa colada pela chuva e um distintivo preso junto ao cinto. — Leonor Vale, largue a faca e mostre as mãos — gritou Rui. Artur viu a expressão dela mudar no espelho, não por reconhecer Rui, mas por ouvir o próprio nome. Nesse instante, a mulher assustada, o homem perseguidor e as moradas trocadas ocuparam finalmente os seus lugares verdadeiros. Leonor agarrou Artur pelo ombro e puxou-o contra o banco. — Arranque. — O carro dele está à frente. — Então empurre-o. Rui aproximou-se devagar pelo lado do condutor. — Artur, mantenha as mãos no volante. Leonor encostou a lâmina ao pescoço do motorista, e uma gota quente desceu até ao colarinho. Com a outra mão, tentou puxar a porta traseira, mas Artur ainda mantinha o bloqueio ligado. O relógio mudou para vinte e duas horas, cinco minutos depois da hora certa. Nesse momento, o relógio dourado dentro da mala começou a tocar, com pancadas claras e graves. Leonor desviou os olhos por menos de um segundo. Artur carregou no acelerador, avançou meio metro e pisou o travão com toda a força. Leonor foi lançada contra o banco da frente, e a faca caiu junto aos pedais. A mala abriu-se, espalhando relógios, pulseiras, anéis e pequenos sacos de veludo pelo chão do táxi. Artur destrancou a porta e atirou-se para fora. Rui passou por ele, puxou Leonor pelo braço antes que ela alcançasse a faca e prendeu-lhe os pulsos atrás das costas. Nenhum dos dois lhe fez perguntas enquanto o último toque do relógio dourado se perdia debaixo do banco. Leonor ficou de joelhos na água, a olhar para as jóias espalhadas que já não podia recolher. Artur voltou ao táxi, estendeu a mão pela porta aberta e desligou o taxímetro às vinte e duas e um.