Quarenta Anos Rui está no ginásio às oito da noite. Hoje faz quarenta anos. Hoje tem o primeiro combate de boxe. Durante vinte anos, Rui trabalha como contabilista. Hoje deixa o trabalho por duas horas. Marta aperta as luvas nas mãos de Rui. Paulo espera junto ao ringue. Paulo tem trinta e cinco anos. Rui olha para o relógio e bebe água. «Estás pronto?» pergunta Marta. «Estou pronto.» «Estás com medo?» «Estou com medo.» Marta olha para ele. «Isso é normal. Respira e olha para Paulo.» Rui olha para Paulo. Paulo não fala. Mexe os braços e dá pequenos passos. «Paulo é mais rápido», diz Rui. «Paulo é mais rápido. Tu sabes contar.» «Isto não é trabalho.» «Não. Mas ainda tens cabeça.» Marta põe a mão no ombro de Rui. «O combate tem três assaltos. Três minutos cada. Ouves a campainha e paras. Ouves a minha voz e vais atrás dele.» «E se eu não conseguir?» «Então paras. O corpo é teu.» O árbitro chama os dois homens. Rui entra no ringue. As pernas estão pesadas. Paulo toca na luva dele. «Bom combate», diz Paulo. «Bom combate.» A campainha toca. Paulo chega primeiro. Dá um murro na cara de Rui. Rui dá um passo para trás. Marta grita do lado do ringue. «Mãos altas, Rui. Mãos altas.» Rui levanta as mãos. Paulo bate no corpo dele. Rui sente o ar sair. Depois toca no braço de Paulo. «Muito bem», grita Marta. «Agora sai.» Rui sai para o lado. Paulo vem atrás. Rui bate uma vez na barriga de Paulo. Paulo recua. A campainha toca outra vez. Rui volta para o canto. Marta tira o suor da cara dele. «Estou cansado», diz Rui. «Ainda tens dois assaltos.» «As minhas pernas estão mal.» «Senta. Bebe água.» Rui bebe água. No bolso das calças, o telefone vibra. Ele não pode atender. Marta vê o telefone. «É do trabalho?» «É o chefe.» «Hoje não.» «Amanhã tenho de estar no escritório às sete.» «Hoje estás aqui.» A campainha toca. Paulo fica mais perto. Rui tenta bater, mas o braço fica baixo. Paulo bate na cara dele. Rui cai com um joelho no chão. O árbitro conta. «Um, dois, três...» Marta grita: «Rui, olha para mim.» Rui olha para Marta. Levanta-se antes do número dez. «Consigo continuar», diz Rui. «Consegues?» «Consigo.» «Então fica perto de Paulo.» Rui fica perto de Paulo. Os dois batem ao mesmo tempo. Rui sente dor no olho. Paulo segura o braço e baixa a cabeça. «Estás bem?» pergunta Rui. «Estou.» A campainha toca. No terceiro assalto, Rui já não corre. Anda devagar. Paulo bate no corpo dele. Rui segura Paulo por um segundo. «Desculpa», diz Rui. «Não faz mal.» «Tenho quarenta anos.» «Eu sei.» Rui tenta um último murro. Paulo afasta-se. A campainha toca. Os dois homens ficam parados. O árbitro fala com os outros homens. Marta segura a mão de Rui. «Perdi?» pergunta Rui. «Não sei.» «Preciso de saber.» «Espera.» O árbitro levanta a mão de Paulo. Paulo ganhou por poucos pontos. Rui baixa a cabeça. Marta tira as luvas dele. A mão direita está inchada. O telefone vibra outra vez. «Atende», diz Marta. Rui atende. «Sim, chefe. Desculpe. Amanhã vejo isso.» Ele desliga e olha para Paulo. «Queres comer alguma coisa?» pergunta Paulo. Rui toca no olho e olha para o relógio. «Quero. Mas pago eu.» «Hoje não.» Rui tira o dinheiro do bolso. Há uma nota e algumas moedas. Põe tudo na mão de Paulo. «Amanhã pago o resto», diz Rui. Paulo fecha a mão sobre o dinheiro. Rui fica junto ao ringue, com as luvas no chão.