O último autocarro Hoje é o último dia de Inês naquele trabalho. Ela espera o autocarro com uma mala pequena. Rui espera no mesmo lugar, como sempre. Eles veem-se todas as manhãs. Nunca falam. Rui fica perto da porta. Inês fica junto da janela. Hoje Inês olha para Rui. Rui olha para Inês. Depois, ela olha para a mala. — Vais viajar? — pergunta Rui. — Vou para outra cidade — diz Inês. — Hoje. — Hoje não vais trabalhar? — Não. Tenho trabalho novo. Começo amanhã. O autocarro chega. A porta abre. Inês entra primeiro. Rui entra depois. Eles ficam de pé, perto um do outro. — Então, não vais voltar? — pergunta Rui. — Não sei. A cidade é longe. — É muito longe? — São duas horas de carro. Talvez mais. Rui segura a barra. Inês segura a mala. O autocarro começa a andar. — Eu sou Rui — diz ele. Inês olha para ele e dá a mão. — Eu sou Inês. Eu sei. — Sabes? — Ouvi alguém dizer o teu nome. — Eu também sei o teu nome. — Como? — Está no teu livro. Inês olha para o livro que tem na mão. Depois fecha o livro. — Lês o meu livro todos os dias? — Não. Vejo o nome todos os dias. Ela fica calada. O autocarro pára na rua seguinte. Entra uma mulher. Rui dá espaço a Inês. — Eu queria falar contigo — diz Rui. — Hoje? — Hoje. — Porquê hoje? Rui olha para a mala. — Porque hoje vais embora. Inês segura a mala com as duas mãos. — E o que querias dizer? — Queria perguntar se queres tomar café comigo. — Agora? — Agora não. Depois do trabalho. — Eu não vou trabalhar. — Então, depois do autocarro. Inês olha para o relógio. — Tenho de ir para casa. Tenho coisas para fazer. — Claro. — E depois vou para a estação. — Claro. O autocarro pára outra vez. Rui olha para a porta. Inês não sai. — Queres tomar café amanhã? — pergunta ele. — Amanhã já estou na outra cidade. — Então, depois de amanhã? — Não sei onde vou estar. — Podes dizer-me? Inês fica a olhar para ele. — Não tens o meu número. — Não. — Tens telefone? Rui tira o telemóvel do bolso. A mão dele treme um pouco. — Tenho. — Dá-me. Ele dá-lhe o telemóvel. Inês escreve o número. Depois escreve o nome. — Agora tens o meu número — diz ela. — E tu tens o meu. — Sim. — Posso ligar hoje? — Podes. — Posso ligar quando chegares? — Podes. — Posso perguntar se chegaste bem? — Podes. O autocarro pára junto da casa de Inês. Ela pega na mala. — É aqui — diz ela. Rui olha para a porta. — Queres mesmo ir? — Tenho de ir. — Por causa do trabalho? — Por causa do trabalho. — E por causa de mim? Inês fica junto da porta. O motorista espera. — Por causa de ti, eu queria ficar — diz ela. Rui não responde logo. Inês olha para ele. — Mas ainda não podemos — diz ela. — Eu começo uma vida nova amanhã. — Eu sei. — Não sabes tudo. — Então diz-me. — Tenho medo de começar tudo ao mesmo tempo. — Eu também tenho medo. — Tu nem me conheces. — Conheço a tua janela. Conheço o teu livro. Conheço o café que compras. Inês olha para o copo vazio na mão dele. — Não conheces o meu café. — É sem açúcar. — Como sabes? — Vejo-te beber. Ela baixa os olhos. Depois dá um passo para a rua. — Liga-me hoje — diz Inês. — Ligo. — Não digas só que vais ligar. — Vou ligar. — E amanhã? — Amanhã também. A porta começa a fechar. Rui toca no braço de Inês. — Inês. Ela volta para ele. — O quê? — Posso dar-te um beijo? Inês olha para o motorista. Depois olha para Rui. — Hoje não. — Porquê? — Porque hoje tenho de ir. A porta fecha. Inês fica na rua. Rui vê-a pela janela. Ela levanta o telemóvel e mostra o número dele. Rui pega no telemóvel e liga. O telefone de Inês toca na rua.