A letra no papel Na noite de Novembro, Mariana subiu a Rua do Poço Escuro com os sapatos molhados e a saia presa numa mão. O eléctrico acabara de passar, lançando faíscas sobre os carris, mas ela preferira guardar os vinte centavos da viagem. Levava um xaile negro sobre a blusa clara, e dentro da mala tinha outro par de meias, ainda secas. À porta da Adega do Falcão, um rapaz vendia castanhas assadas num cartucho de papel, e a fumaça prendia-se ao nevoeiro vindo do Tejo. Artur, o dono da casa, estava a contar moedas atrás do balcão. Havia caldo verde ao lume, pão duro numa cesta e três jarros de vinho para as mesas ocupadas. Os homens tiravam os chapéus por causa do calor, mas duas mulheres mantinham os casacos vestidos. Desde que soldados tinham atravessado a cidade no Verão, as conversas baixavam sempre que uma bota batia com força no chão. — Chegas tarde — disse Artur, sem levantar os olhos. — Chego à hora em que me pagas. — Hoje pagava-te mais se tivesses chegado cedo. Mariana pousou a mala e olhou para o homem sentado junto da parede. Usava fato castanho, gravata estreita e um sobretudo demasiado bom para aquela sala. Tinha um caderno aberto sobre os joelhos, mas ainda não escrevera nada. — Quem é aquele? — perguntou ela. — Duarte Lemos, da Emissora da Graça. Quer ouvir-te cantar e pôr as letras no papel. — As minhas letras já estão onde devem estar. — Na tua cabeça? — Na minha boca. Artur empurrou para ela uma tigela de caldo e duas rodelas de chouriço. Mariana comeu de pé, devagar, enquanto Duarte fingia observar uma mancha na parede. Quando acabou, ela trocou as meias na pequena despensa e prendeu o cabelo com dois ganchos. Depois entrou na sala, parou junto dos músicos e esperou que a guitarra desse o primeiro som. Cantou uma história de uma janela fechada, de um lenço perdido e de um marinheiro que prometia voltar. Duarte começou a escrever depressa, inclinando o caderno para receber a luz da lâmpada. Na segunda quadra, pediu que ela repetisse um verso, mas Mariana continuou até ao fim. Os clientes bateram com os copos nas mesas, e Artur serviu mais vinho sem oferecer nenhum à cantora. — Agora pode perguntar — disse Mariana. Duarte aproximou-se com o lápis na mão. — No segundo verso, cantou “o mar guardou o teu caminho”? — Não. Cantei “o mar gastou o teu caminho”. — Tem a certeza? — Gasto os sapatos, gasto a voz e gasto a vida. O mar também pode gastar um caminho. Ele apagou uma palavra, com cuidado para não rasgar o papel. — Quem escreveu essa cantiga? — Ninguém. — Alguém teve de a fazer. — Foi sendo feita. Uma mulher cantou uma parte, outra mudou duas palavras, e eu dei-lhe o fim. Duarte olhou para o caderno como se o papel tivesse ficado mais pesado. — Na rádio precisamos de um nome. — Escreva o meu, se precisa tanto. — E as outras mulheres? — Elas não vêm pedir o dinheiro. Artur colocou cinco escudos sobre o balcão, embora tivesse prometido seis. Mariana contou as moedas duas vezes e deixou uma delas separada. — Falta um escudo. — Houve pouca gente. — Houve cinco mesas e pediram três jarros. — Também partiram um copo. — Eu não canto com copos. Duarte fechou o caderno, mas não se afastou. Artur acabou por tirar outra moeda da gaveta e atirou-a para o balcão. Mariana guardou o pagamento na mala, sem agradecer. — Amanhã quero escrever as outras — disse Duarte. — Na estação há silêncio e uma mesa decente. — Também há homens que mandam calar? — Há um director que manda em quase tudo. — Então não há silêncio. Duarte aceitou a resposta com um movimento da cabeça. Deu-lhe um cartão com o nome da emissora e escreveu no verso uma hora: três da tarde. Mariana dobrou o cartão e meteu-o junto das moedas. Na tarde seguinte, a chuva batia nas janelas da Emissora da Graça. A estação ocupava o segundo andar de uma casa amarela, por cima de uma loja fechada. Mariana subiu uma escada estreita e encontrou Duarte numa sala com fios, baterias, válvulas e um microfone redondo sobre uma base de madeira. Numa mesa ao lado havia café frio, um prato com migas de bolo e uma pilha de cartas enviadas por ouvintes. — Pensei que não vinha — disse ele. — Eu também pensei. Mariana tirou as luvas de lã, remendadas em dois dedos, e pousou a mala no chão. Duarte ofereceu-lhe uma cadeira, mas ela ficou de pé diante do microfone. — Hoje não vamos transmitir — explicou ele. — Quero apenas ouvir, escrever e confirmar cada palavra. — E quanto paga? — Dez escudos por quatro cantigas. — Doze. — A emissora não é rica. — Eu também não, e isso nunca baixou o preço do pão. Combinaram onze escudos e um café quente. Duarte pediu o café pelo tubo de comunicação preso à parede, e uma voz distante respondeu que a chaleira ainda demorava. Depois abriu o caderno numa página limpa. Mariana cantou a primeira cantiga sem guitarra. A sala devolveu-lhe uma voz mais seca do que a voz da adega. Duarte interrompia, repetia palavras e marcava pequenos riscos entre os versos. À terceira cantiga, ela começou uma letra que Artur nunca lhe deixava cantar até ao fim. “Na rua mora uma sombra, com duas botas no chão; se bate à porta de noite, não lhe entregues o teu pão.” O lápis de Duarte parou depois da palavra “botas”. Do corredor chegou o ruído de uma porta e, logo depois, passos de homem. Mariana deixou morrer a última nota e esperou. — Essa não estava na lista — disse ele. — A lista era sua. — Quem fez a letra? — Eu. — Quando? — Isso também vai para o caderno? Duarte levantou-se e fechou a porta da sala. Não rodou a chave, mas ficou um instante com a mão sobre a maçaneta. — Há palavras que o director não deixa passar — disse ele. — Então escreva-as antes que ele chegue. — Se isto for transmitido, podem fechar a estação. — Eu não pedi para transmitir. Duarte voltou à mesa e passou a mão pelo cabelo. Mariana viu uma aliança no dedo dele, muito gasta na parte de baixo. Sobre a secretária estava uma carta aberta, onde alguém pedira mais música alegre e menos vozes de taberna. — Podemos mudar “botas” para “passos” — disse Duarte. — A ideia fica. — Não fica. — Um passo pode bater à porta. — Uma bota também pode entrar. Ele olhou para ela, depois escreveu o verso inteiro. Pediu que repetisse a segunda quadra, e Mariana cantou mais baixo, quase sem abrir a boca. A cantiga falava de farinha escondida, de uma janela sem luz e de mãos quietas sobre a mesa. Quando acabou, Duarte leu tudo em voz alta, sem cantar e sem trocar nenhuma palavra. O café chegou numa chávena rachada, trazido por Celeste, a costureira que trabalhava na sala do fundo. Ela usava uma fita métrica ao pescoço e trazia linha branca presa à manga. — Esta é a cantiga das botas? — perguntou Celeste. Mariana fitou Duarte. — Já a conhece? — Ouvi-a no corredor. A minha vizinha canta outra parte quando estende a roupa. — Que parte? Celeste pousou a chávena e cantou quatro versos sobre uma chave escondida num vaso. A melodia era igual, mas Mariana nunca ouvira aquelas palavras. Duarte procurou outra folha, enquanto as duas mulheres repetiam a quadra até concordarem sobre a ordem. — Ponho o nome de quem? — perguntou ele. Celeste encolheu os ombros. — A minha vizinha chama-se Amélia, mas diz que aprendeu com uma peixeira. Duarte deixou o espaço do nome em branco. Mariana bebeu o café, que sabia a cevada e estava doce demais, e viu a chuva correr pelo vidro. Pela primeira vez, o caderno não lhe pareceu uma gaiola, embora ainda pudesse tornar-se uma. Três noites depois, Duarte voltou à Adega do Falcão com folhas passadas a limpo. Artur tinha pendurado uma cortina nova junto da porta e aumentado o vinho em dez centavos. Dois homens jogavam cartas perto do balcão, enquanto uma mulher dividia uma sardinha com o filho. Mariana afinava a voz com pequenos sons, de costas para a sala. — Trouxe as cantigas — disse Duarte. — Quatro cópias para a emissora e uma para si. Ela recebeu as folhas, mas não sabia ler todas as palavras com facilidade. Reconheceu o próprio nome no alto, seguido de uma linha curta. Mais abaixo, as quadras estavam alinhadas como degraus. — O que escreveu depois do meu nome? — “Cantada por Mariana Reis.” — E onde diz que fui eu que fiz a das botas? Duarte apontou para a última página. — Aqui diz “letra de Mariana Reis, com uma quadra recolhida por Celeste Moura”. Artur aproximou-se e tentou tirar-lhe as folhas da mão. — Não vais cantar essa aqui. Mariana puxou o papel para junto do peito. — Ainda não comecei. — Conheço a música. — Agora também pode conhecer as palavras. Um dos homens das cartas deixou de jogar. O outro virou-se para a porta, onde uma figura parada parecia apenas procurar abrigo da chuva. Duarte guardou o lápis no bolso, mas ficou ao lado da cantora. A guitarra deu o primeiro acorde. Mariana pousou as folhas sobre uma mesa, sem as largar por completo, e cantou a quadra da janela fechada. Artur respirou fundo quando ela chegou ao fim, à espera da cantiga seguinte. Mariana levantou a última página e disse: — Esta já não cabe só na minha boca.